• CHEFE DE ESTADO PROPÕE SOLUÇÕES DIPLOMÁTICAS PARA CONFLITOS LIGADOS À ÁGUA


    O Presidente da República, João Lourenço, considerou, esta quinta-feira, em Luanda, necessárias soluções políticas e diplomáticas para prevenir e resolver conflitos relacionados com a água em África, através do reforço da cooperação entre os países que partilham bacias hidrográficas.

    Ao discursar na abertura da 4ª edição da Bienal de Luanda, Fórum Pan-Africano para a Cultura de Paz e Não Violência, o Chefe de Estado salientou a importância da criação e operacionalização de comités e comissões de gestão transfronteiriça das bacias hidrográficas, como pilares da confiança mútua e da diplomacia preventiva.

    João Lourenço exortou os chefes de Estado, líderes comunitários, jovens e cidadãos africanos a conjugarem a vontade política e a capacidade técnica em prol de uma governação da água justa, capaz de responder às necessidades das populações e prevenir tensões entre países vizinhos.

    O estadista angolano manifestou a expectativa de que o encontro contribua para a elaboração de propostas concretas para o Pacto Continental sobre a Governação da Água e para a definição de um roteiro de acções com impacto duradouro na vida das populações africanas.

    Segurança hídrica e alimentar

    O Presidente da República considerou a segurança hídrica e a segurança alimentar duas dimensões inseparáveis, por entender que não existe soberania alimentar sem segurança hídrica.

    Na sua intervenção, chamou a atenção para os efeitos das alterações climáticas, que provocam secas e inundações com consequências severas para as condições de vida das populações de diferentes regiões do continente.

    João Lourenço salientou a necessidade de medidas nacionais, regionais e continentais para mitigar os efeitos dos fenómenos naturais, cuja frequência representa um desafio para o desenvolvimento sustentável e a segurança das comunidades.

    Referiu que a prática de governação de Angola se orienta pelo princípio da boa vizinhança, considerado fundamental para prevenir tensões, promover a harmonia e assegurar um ambiente de paz, no qual as comunidades fronteiriças e os países possam ter acesso à água sem constrangimentos.

    Neste contexto, afirmou que Angola, consciente da sua responsabilidade enquanto detentora de importantes recursos hídricos, pauta a sua actuação pelo princípio do uso equitativo da água e pelo respeito dos compromissos internacionais, com particular realce para o Protocolo Revisto da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) sobre os Cursos de Água Partilhados.

    Financiamento climático

    Durante a sua intervenção, o Chefe de Estado defendeu a união dos países africanos para exigir a desburocratização dos fluxos financeiros internacionais e a canalização prioritária de ajudas não reembolsáveis e de empréstimos concessionais em condições justas para a adaptação às alterações climáticas.

    Segundo João Lourenço, o continente necessita de recursos financeiros para executar as prioridades nacionais e concretizar as estratégias definidas por cada país para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.

    Noutra parte do seu discurso, o Presidente angolano saudou os 12 jovens líderes, representantes das cinco regiões de África, bem como os activistas e embaixadores da juventude africana para a paz, que participam no diálogo intergeracional da Bienal de Luanda.

    Neste contexto, considerou este espaço uma oportunidade de intercâmbio entre a experiência e a serenidade dos líderes mais velhos e a energia transformadora, a criatividade e a audácia da juventude africana.

    Sob o tema «Governação inclusiva, unir as gerações para garantir a disponibilidade sustentável da água e sistemas de saneamento seguros para alcançar os objectivos da Agenda 2063», o diálogo procura valorizar o contributo dos jovens para a gestão sustentável dos recursos hídricos.

    João Lourenço apontou a possibilidade de os jovens africanos criarem empresas emergentes (startups) dedicadas às tecnologias de água e saneamento sustentável, bem como liderarem soluções de base comunitária e iniciativas de diplomacia preventiva e mediação de conflitos.

    Papel da mulher africana

    Na sua intervenção, o estadista prestou homenagem à mulher africana pelo papel que desempenha nos lares e nas comunidades rurais, onde assume responsabilidades fundamentais na gestão quotidiana da água, na protecção dos ecossistemas e na mobilização comunitária.

    O Presidente da República considerou fundamental a presença das mulheres nos processos de tomada de decisão, no planeamento hídrico e nos mecanismos de prevenção de conflitos.

    Para João Lourenço, a união entre mulheres e jovens constitui um factor importante para contrariar tendências de confrontação e prevenir conflitos de diferentes naturezas e causas.

    Concertação continental

    O Presidente da República considerou que o tema central da 4ª edição da Bienal de Luanda assume particular relevância por estar alinhado com o tema da União Africana para 2026.

    Acrescentou que o encontro deve favorecer a concertação de ideias e a convergência de acções para a definição de um quadro de actuação colectiva de África, a apresentar na Conferência Mundial da Água das Nações Unidas, prevista para Dezembro deste ano.

    Sob o lema “Reforço da Governação da Água em África como Instrumento de Prevenção, Mediação e Resolução de Conflitos”, a edição deste ano coloca no centro do debate a relação entre os recursos hídricos, a paz, a segurança e o desenvolvimento sustentável do continente.

    O programa do primeiro dia prevê um diálogo intergeracional de alto nível sobre governação inclusiva, com a participação de chefes de Estado e de Governo, jovens líderes africanos e representantes da diáspora, seguido de um painel sobre água, paz e cooperação transfronteiriça.

    A agenda inclui, igualmente, debates sobre a diplomacia da água, a integração regional e os mecanismos de prevenção e resolução de conflitos, com a participação de responsáveis governamentais, diplomatas e especialistas de vários países africanos.

    Na sexta-feira, os trabalhos prosseguem com painéis sobre a participação comunitária na governação da água, os direitos humanos, as alterações climáticas, a migração, a resiliência climática e os investimentos em infra-estruturas hídricas e formação de capital humano.

    A programação contempla ainda a análise de mecanismos de financiamento e de parcerias público-privadas para ampliar o acesso à água e ao saneamento, considerados factores essenciais para a saúde pública, a segurança alimentar e a estabilidade das comunidades.

    A quarta edição termina com a adopção da Declaração da Bienal de Luanda 2026 e de um comunicado final da União Africana, da UNESCO e do Governo angolano